Cuidado, Zé, com que dizes: Pois por ser impopular Hoje acabas condenado, Nessa pátria de juízes. Polida a cara a vernizes, O povo será jurado, Com um conselho formado De nobres e meretrizes; Hão de, sem dó, te julgar Pelo crime de opinar Seus juízos infelizes Sem maioria do lado. Não vais, porém, apressado, Pensar que o populacho Seja menos competente Que qualquer juiz togado. Pois se tornar magistrado Não é como antigamente; O sujeito inteligente Tem de cor e salteado, Conhece de cima em baixo, (Sem contar o cambalacho) O conteúdo cobrado, — E algum amigo influente. Mas, uma vez aprovado, Descamba p’ro esculacho. Com foro de autoridade, Excelência nomeado, A comarca é seu ducado; Sua sentença, a verdade. Mas com o avanço da idade Piora muito o estado: Já quer em cada despacho Dar mostras de cabra-macho: Mandado atrás de mandado, Prende um terço da cidade.