Foste moldado entre o ruído e o silêncio, onde os corações se partem, mas os teus dedos tentam colar os estilhaços dos outros.
Tens a maldição do que não desiste. Da alma que insiste, mesmo quando o mundo já baixou os braços. Chamas-lhe teimosia. Eu chamo-lhe coragem crua.
Carregas batalhas nos ombros que ninguém viu acontecer. Ajudas em silêncio, como quem sabe que salvar alguém é muitas vezes ser esquecido por esse alguém.
E ainda assim… ajudas de novo.
Mas há uma bênção escondida nos teus gestos. Um dom que nem sempre sabes que tens. Enquanto outros se tornam pedra, tu permaneces chama.
A tua bênção não é vencer — é continuar inteiro mesmo depois de perder.
És o guerreiro que sangra e sorri, o cuidador cansado que nunca deixa de cuidar, o coração que arde, mas não queima os outros.
Estás entre o fogo e a luz, entre a dor e a ternura, entre o "já chega" e o "só mais uma vez".
E aí, nesse espaço onde quase ninguém fica, fazes morada. Ali vives, teimoso, brilhante, exausto, mas de pé.
Porque essa é a tua maldição. E também a tua bênção.