Letra da música
A morte levou meu amigo
Do calvário da existência
Apagando-me pra sempre
Da cruz do seu olhar.
Morreu de artrose
O pequeno cão imberbe
Meio bicho, meio gente.
Que em seu ladrar sombrio
Nada me dizia,
Mas certamente compreendia
Meu humano coração.
Era um cão triste desde sua enfermidade
Agravada no inverno.
Aos seis meses de idade
Contraiu pineumonía,
Sofreu as dôres do inferno
Em meu cólo desatento.
Num momento adormecia
E ficava a ressonar.
Meu abraço te envolvia.
Num suave movimento
Eu te grimpava para o ar,
Me confiavas o teu medo
E o cheiro môrno da tua carne.
Nada póde nos roubar esses acontecimentos
Que restam na lembrança.
E na missão dos amores
Que tão bem desempenhavas,
Amavas as cadelas
E fazias loucas délas.
E entoavas na solidão
Tuas ódes de melancolia
Uivando para a Lua fria.
Mais tarde se tornou
Um animal sizúdo,
Sério, triste e mudo
Com nome de gente.
Ele se chamava Níti
Como o filósofo alemão
Homenageado por um cão.
E não eram por acaso
Os tormentos que sofria!
Tua comida deveria
Ser mais nutritiva,
Mas foi tratado com polenta
Na refeição de todo dia
Na tragédia da filosofia.
Assim se apagou
A chama da tua vida.
Quando a morte te colheu,
Jazías em meus braços.
Ao teu redor tudo era breu,
Teu pensamento era meu,
Meu cão.
Estavas magro e abatido,
Teu pêlo era cinza.
Teus olhos côr de mel,
Suplicantes nos instantes
Em que sofreu de dor.
Teu lugar é lá no céu,
Meu cão.
E nas paredes desgastadas
Deste velho mundo,
A mim résta compreender
E aproveitar cada segundo.
Porque o tempo não volta jamais!
E agora, meu amigo...
Descansa em paz.