Lyrics
[Abertura]
Naquela vila, ninguém subia a serra depois que o sino da capela batia onze vezes.
Não era superstição. Era sobrevivência.
[Conto]
Diziam que, entre os pinheiros, vivia uma criatura chamada Bruha.
Ela tinha a pele pálida, esticada como cera fria, e um único olho enorme cobrindo todo o rosto. O olho não piscava. Apenas seguia cada pessoa que ousasse entrar na mata.
Mas o pior não era o rosto.
Nas palmas das mãos, Bruha carregava bocas pequenas, úmidas e famintas. Elas falavam com vozes de gente conhecida. Às vezes, chamavam pelo nome de uma criança. Às vezes, pediam ajuda. Quando alguém se aproximava, as bocas se abriam ainda mais, prontas para comer.
E onde deveriam existir pés, havia outras mãos.
Bruha não caminhava. Agarrava-se aos troncos, subia pelas árvores e se movia de galho em galho, sempre acima da cabeça de quem passava. As unhas raspavam a casca em três golpes lentos.
Na noite em que Tomás desapareceu, sua irmã ouviu a voz dele vindo do bosque.
“Lia... me ajuda.”
Ela levou uma lanterna e entrou entre as árvores. Encontrou o casaco do irmão preso num galho alto. Depois ouviu três batidas no tronco atrás dela.
Quando se virou, o enorme olho de Bruha já estava diante de seu rosto.
As mãos em seus braços se fecharam ao redor do tronco. As bocas nas palmas sussurraram, todas ao mesmo tempo:
“Você veio sozinha.”
Lia correu. Correu até a capela, bateu na porta e gritou por socorro.
Os moradores abriram apenas uma fresta.
Do lado de fora, no telhado, quatro mãos se agarraram às telhas. Uma quinta mão desceu pela parede. Depois outra. E outra.
O sino bateu onze vezes.
Na décima segunda badalada, a lanterna de Lia se apagou.
Na manhã seguinte, encontraram marcas de dedos subindo pela torre da capela. Encontraram também um risco circular na madeira da porta, como se um olho enorme tivesse encostado ali durante a noite.
Desde então, quando alguém ouve uma voz conhecida chamando do bosque, ninguém responde.
Porque Bruha aprendeu os nomes de todos.
E dizem que, lá no alto, entre os galhos, um olho continua aberto, esperando alguém olhar de volta.
[Encerramento]
Se você ouvir três batidas no tronco atrás de casa, não se vire.
A primeira é um aviso.
A segunda é fome.
A terceira já estará perto demais.
Style of Music
narração de terror em português brasileiro, voz masculina grave e íntima, ritmo lento e tenso, dicção clara, cama musical ambiente minimalista com drones graves, cordas dissonantes suaves, madeira rangendo e impactos espaçados, mix escuro e cinematográfico, tensão crescente sem dominar a voz