Lyrics
Santo Cristo, o guerreiro do sertão
Não tinha medo, João de Santo Cristo
Todo o povo já sabia, ele se perdeu
Largou pra trás a terra seca e dura
Pra sentir no peito o ódio que o mundo lhe deu
Quando criança, já sonhava ser valente
Mais ainda quando viu o pai ser derrotado
Era temido nas ruas da sua aldeia
E até os professores com ele tinham cuidado
Na igreja ele ia só pra tirar proveito
Roubava as moedas que as velhinhas deixavam lá
Sabia mesmo que era diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
E então pensou que queria ver o mar
E as coisas grandes que a televisão mostrava
Juntou o pouco que conseguiu ganhar
E, sozinho, no caminho se lançava
Comia as menininhas da cidade
De tanto brincar, aos doze era professor
Mas no caminho foi pro reformatório
E o ódio nele cresceu junto com a dor
Não entendia porque a vida era assim
Só por ser negro e pobre, tinha que sofrer
Cansado de respostas não achar
Pegou a estrada e foi direto a Salvador
Chegando lá encontrou um boiadeiro
Com uma passagem e um destino a perder
João disse “eu vou no seu lugar”
E foi de ônibus direto pro Planalto ver
Achou a cidade linda e iluminada
E prometeu pra si mesmo começar
A trabalhar e fazer o seu dinheiro
Cem mil por mês, cortando madeira no lugar
Mas a vida sempre é dura pro sonhador
E o dinheiro mal dava pra se sustentar
Foi então que ele conheceu Pablo
Um peruano que um negócio queria começar
Santo Cristo trabalhava o dia inteiro
Mas a fome e a miséria não deixavam viver
Decidiu que com Pablo ia se armar
E começou a vida errada pra sobreviver
Logo a cidade soube do negócio
“Tem coisa boa aí”, era o que se ouvia falar
Santo Cristo fez sua fama e sua história
E todo o tráfico dali foi dominar
Mas a riqueza trouxe confusão
E os boys da cidade começaram a atrapalhar
Primeiro roubo, João foi pro inferno
E jurou vingança quando o mal o visitou lá
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e forte, todos tinham que temer
Ele conheceu Maria Lúcia, linda flor
E prometeu que por ela ia viver
Queria casar, formar uma família
E a violência deixar para trás
Mas o destino sempre tem um plano
E um dia o mal voltou, e tudo se desfaz
Jeremias, o traficante do lugar
Descobriu o plano de João e quis brigar
Santo Cristo chamou pra um duelo
E disse que sua honra ia lavar
No sábado, às duas horas, o povo veio
Para assistir o duelo que ia começar
Mas Jeremias foi covarde e pelas costas
Acertou Santo Cristo e começou a gargalhar
Sentindo o sangue na garganta, ele olhou
E viu o povo aplaudindo o traidor
Mas então, como um milagre do destino
Maria Lúcia trouxe a arma do amor
Ela gritou: “Jeremias, você não presta
João é homem e não atira por trás”
E Santo Cristo deu seus tiros certeiros
E o vilão se foi, sem nunca ter paz
O povo cantou sua história
Santo Cristo virou mito na nação
E até hoje, no Pelourinho, o tambor bate
Contando as glórias do filho do sertão
Foi um herói que lutou até o fim
E na história ele soube vencer
De Brasília, o grito ecoa
É Santo Cristo, que soube morrer!