Nunca o estar feliz me deu tanto medo Nunca me esforcei tanto para sofrer em segredo Nestes dias isolado, confinado Arrastando-me pela casa, de cabelo desgrenhado, sem banho tomado Tomo consciência, da minha dormência e da precoce demência Que não adianta, tapar a cabeça com uma manta, para que a luz que nos espanca Se apague de vez, e ao contar até três, a vida me pegue pelos pés... como um filho que nasce... A minha filha vai nascer...A nossa filha vai nascer! Vai nascer no meio de uma pandemia, e o gato que só mia, e tudo o que eu queria Era que ele se calasse, para que eu adormecesse, e ela nascesse Num mundo normal , com um pai bestial e uma mãe que a amortece! Tenho medo... Estou doente...Há muito que o sei... E embora dormente, levando tudo à frente Sei o quanto errei! Estou feliz! Se me acusarem de algum erro Que não seja o de ter medo de ser feliz... Que a vida que me resta, me dê dois dedos de testa Para poder amar este petiz! Tenho medo... A minha filha vai nascer...A nossa filha vai nascer!